ADC taedium vitae
Álbum de fotos Álbum de smiles Álbum de tattoos
[a sublimidade de desperdiçar uma vida que podia ser útil] 
   
 
 
 

Tudo é versão. Há outras versões além da nossa.
(Paulo Francis)





          Nos tempos da Grécia Clássica, o traço mais importante da Ética repousava no conceito de arethé (excelência, virtude), que relacionava o predicado de tudo o que era bom dentro de seu próprio contexto: a excelência do cultivo de uma plantação, a virtude intelectual do homem sábio, a coragem como valor do guerreiro. Ao trazer para os dias atuais esta concepção, deparamo-nos não apenas com um problema de tradução, mas, sobretudo, com diferenças conceituais entre a visão da antiga Hélade e a perspectiva de nosso Ocidente — em relação a como agrupar características distintas demais daquilo a que se referem. Com o devido tempo, as palavras não servem mais como sinônimos, pois há culturas que nem sempre se completam e há passados que podem sempre mudar. Ainda que tivéssemos uma tradução precisa, a arethé não teria, hoje, correspondência quanto ao seu significado pragmático. Os tempos são outros, e se no princípio era o verbo, com a chegada do verbo (e da verba) mudaram-se os princípios.
          Assim, o interesse pelas superfícies em detrimento das profundezas fez do homem, este invasor do século XXI, uma espécie limitada — para não dizer covarde. Não fosse essa sujeição ao medo, seria maior a pretensão de se mergulhar em águas abissais (mesmo com ausência de luz e sob a forte pressão das grandes profundidades). Um breve olhar sobre a época contemporâneo mostra que a ousadia intelectual perdeu parte de sua força; agora, não é o bastante: o que mais se assiste é o nadar-com-a-corrente em um maremoto qualquer. Não foi, todavia, por falta de necessidade, tampouco por faltar desejo; ocorre que o medo de afogamento tornou-se mais forte que a coragem de prosseguir em busca das profundezas. Faltam, pois, maiores pulmões ou nos sobra pouco oxigênio?
          Nesse ínterim, o que há no cerne da verdade para que seja tão natural, em nossos dias, fantasiá-la com esquecimentos e distorções? Seríamos nós o seu reflexo igualmente adornado — mas com sucessivas máscaras? De que forma, então, despi-la? E de que forma, principalmente, nos despir? Filha da insatisfação, a inteligência nunca admitiu, quando praticada, a proibição do direito ao raciocínio, ao senso crítico, ao livre-pensar. Esta proibição não está no pensamento, ainda que dele seja fruto. Exterior a nós, o não peremptório não se nota: um véu lançado à frente condenou as perspectivas. Como, portanto, entender o mundo se proíbem o olhar? Ora, da mesma forma que o girar do mundo nos impede de sonhar — e, no entanto, sonhamos —: Sapere aude, ouse usar a própria inteligência (pois as respostas, estas não chegarão fáceis com o soprar do Zéfiro).
          Claramente, aquele que tem o direito (e o dever ignorado) de pensar vê-se, inevitavelmente, diante de um espaço social repleto de estorvos e estouvados: à sociedade, nada é mais cômodo do que não pensar. A civilização atual, erigida como é a partir do contato humano, tem o caráter que sempre possuiu: magros discursos malogrados, batalhas sem grandes conclusões, um império de ideologias convencionais; e para cada pastor, um rebanho essencial — a temer um cajado qualquer. Nesse meio, o indivíduo crítico pode tomar dois rumos, quais sejam, o consenso ou o com-senso, a excrescência ou a excelência: ignorar sua força crítica ou ser um tanto quanto maquiavélico: antes ser vil que servil. Questão de escolha. No caso da última alternativa, é mister saber que os muros de Berlim não nutrem simpatias por quem tenha a pretensão de se aproximar com uma marreta, posto que houve, há e, com o perdão da pretensão, haverá sempre uma espécie de Guerra Fria nas entrelinhas das civilizações (ainda que não seja devidamente registrada pela História). Para os (per)seguidores do senso crítico, as idéias brotam, sem reconhecimento de propriedade e sem qualquer respeito hierárquico pela cabeça de onde nascem, umas pelas outras e por estranhos meios, sem que sejam formalmente apresentadas, de modo que torna-se uma empreitada delicada, perigosa e instável revelar o suficiente sobre o que entendemos como importante, da mesma forma (e diretamente proporcional) que torna-se ameaçador fazer revelações em demasia acerca dos fatos relevantes — pois há sempre uma sedução, uma repressão qualquer a espreitar o primeiro indício de intenção.
          Para quem, por outro lado, prefira ignorar o senso crítico, é interessante que tenha em mente aquilo que bem salientou James Abraham: quem não pensa é pensado. E ser pensado, aqui, nada mais é do que a situação de se estar à mercê da maré. Afinal, homem ou plâncton? A biologia tem sua resposta; os noticiários, por sua vez, têm a sua interpretação. Informado e enformado, o indivíduo indiferente não se importa em consumir a imundície imediatista e quaisquer verdades intuídas, enlatadas e prontas para consumo. A antiga virtude grega transformou-se, pois, em fresco vício — uma mercadoria que, a cada edição diária do amanhecer, fortalece a hipótese de que seja um produto não-perecível. Garganta abaixo, o ranço escorre feito novidade, verdade inconteste, enquanto os grupos gracejam: têm tudo de tal maneira organizado que o amanhã será sempre a véspera de qualquer propósito tão inútil e irracional quanto o agora. Mas disso não sabem, pois, como asseverou o tal filósofo alemão que, atualmente, é mais citado do que lido, “a humanidade gosta mais de ver gestos do que ouvir razões.”
          Toda forma de impostura imposta, de poder ilegítimo, de fato deformado, é um acorde a mais para o ragtime das massas. Assim, dificilmente a palavra omissão se encaixa melhor em outro contexto que não seja no calabouço da mídia. (Exceções existem, faça-se justiça, pois a política é uma forte concorrente.) A alienação, antes de ser uma palavra a mais em meio às vísceras de um dicionário, tornou-se uma realidade cínica, imersa que está em um momento histórico no qual nunca houve tanta liberdade de expressão — ao mesmo tempo em que nunca se fez tão mau uso desse livre-arbítrio, esta postura desperdiçada ante a vaidade das conveniências. O que se assiste, antes de um transitar de opiniões pessoais, é o multiplicar de idéias conquistadas por osmose, a preços módicos, mínimos, quase gratuitos. Mais que por uma questão de comodidade intelectual do que de economia doméstica, poucos são aqueles que, de fato, são a fonte de seu próprio dizer: um panorama de “perfeita prostituição mental”, poderíamos dizer — mas não sem certo desconforto.
          Um desconforto que diz respeito sobretudo à possibilidade de que, ao títere dos fatos, ao fantoche das notícias distorcidas, à marionete das realidades deformadas, não lhe tenha resistido ao menos um resíduo de desejo para ser possível desatar o nó górdio da sua situação de alheamento: talvez ocorra que ao individuo sedento por uma gota mamífera, a mama da mentira é a oportunidade gratuita que mais lhe apetece diante da confortável e acolhedora predisposição ao mínimo esforço mental. Uma situação complicada, sem dúvida, pois quem saberia o que é estar a passos de um abismo sem fazê-lo? Quem poderia vislumbrar a paisagem de um dia sem que, para isso, abrisse os olhos pela primeira vez? Platão e seu Mito da Caverna que o digam. E a imaginação, nesse caso, não tem serventia, pois se limita a elaborar desvarios a partir de experiências consumadas. Ou consumidas.
          O saber e o crer, isto é, o compreender e o acreditar, são líquidos imiscíveis. E se tudo é versão de algo, a ousadia de chafurdar no curso lodoso do atualmente faz-se condição essencial para que, bem ou mal, o ouro de aluvião seja encontrado em meio à lama moldável das incoerências. Percorramos, pois, o rio que corre entre as margens do erro; sem receios, mas com porquês — muitos, incontáveis porquês, pois sem eles não haveria rio, nem margem, nem foz, nem erro. Nem nós. Olhe, mas não se iluda; leia, mas não se engane; veja, mas desconfie. E se depois disso não houver aplauso, basta recordar-se de Fócion, que compreendeu perfeitamente bem quando, ao ser aplaudido por uma multidão, perguntou o que tinha feito de errado.



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Albert Camus

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Aristóteles

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René Descartes

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Michel Foucault

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Sigmund Freud

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Georg Wilhelm Friedrich Hegel

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Martin Heidegger

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Thomas Hobbes

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David Hume

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Roman Jakobson

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Immanuel Kant

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Gottfried Wilhelm von Leibniz

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Karl Marx

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Friedrich Nietzsche

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Jürgen Habermas

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Platão

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Jean-Paul Sartre

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Ferdinand de Saussure

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Arthur Schopenhauer

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(publicado originalmente em the waste herald)

 

 
 
 
 
 
 


 

 
 
 
 
 
 

Esse será o nome do som, cuja razão será óbvia quando estiver pronto. Por enquanto, esses 2.5% de progresso significam ter cortado e parafusado as cantoneiras em uma das quatro caixas, e instalado as alças laterais para o velho transporte back-breaking.

caixa de som com cantoneiras parafusadas

Com o acabamento mínimo, dá para ver que as caixas ganham muito mais presença. Apesar de parecerem mais caixas da Idade Média, isso vai melhorar assim que embutir as cabeças dos parafusos e deixar tudo preto com banhos de ácido.

caixa de som nail amputator

Apesar da minha incompetência em fazer coisas retas, até que ficou tudo bem alinhado, com ajuda, claro, dos parafusos colocados a cada 5 centímetros que fazem a cantoneira abraçar a caixa como se fosse a última esperança.

próxima vítima da incompetência

Agora começa o mesmo. Mais 3 vezes. Até chegar a próxima fase, que é pintar. Como a caixa é trapezoidal, não dá para simplesmente cortar tudo com ângulo de 45 graus e sair parafusando. Isso só funciona para as 4 barras verticais, o resto fica uma desgraça de combinações horríveis cujos cálculos espero nunca mais ter que fazer.

oficine joe hell’s kitchen

É aqui que a coisa toda toma forma e vem à luz (ou surge, pelo menos). E logo abaixo o estoque de suprimentos a serem cortados, medidos, lixados, furados, tratados, até ficarem prontos para proteger as caixas com suas vidas e aguentar qualquer porrada sem reclamar.

oficine joe hell’s kitchen: suprimentos

Minha intenção não era terminar a caixa inteira hoje, já que tinha dormido muito mal e estava meio desanimado para fazer tudo com calma suficiente para prestar atenção aos décimos de milímetro que insisto em imaginar que consigo medir. Mas, quando estava parafusando a cantoneira nas costas da caixa, o suporte escapou e a caixa com seu maldito canto de ferro caiu bem na ponta do meu dedão e literalmente catapultou minha unha (se fosse fina, dobraria, mas é das cascudas — era).

Logicamente, doeu pra caralho e tudo, como toda unha na qual cai uma caixa de som de uns 60kg. Porém, o interessante foi que a amputação liberou uma quantidade tão grande de endorfinas (os analgésicos naturais do corpo) e provavelmente um bocadinho de adrenalinha, que terminei a caixa com toda a boa vontade. E ainda deu tempo de começar a cortar e medir a segunda, até que o efeito passou, o dedo inchou, e agora apenas dói e enche o saco.

Provavelmente o próximo post será com as caixas pintadas. Se não perder nenhum pedaço não-vital, isso deve levar cerca de 2 semanas regadas a analgésicos e lamúrias.

 

 
 
 
 
 
 

Depois de muitos anos tentando e fracassando em montar um som que funcionasse decentemente, com qualidade boa e potência alta, finalmente acho que estou perto.

Meu último equipamento de som era feito de 3 caixas separadas, cada uma com sua própria freqüência e amplificador. Uma corneta dobrada para graves, uma caixa selada para graves e médios, e outra com cornetas e tweeters.

Apesar de os falantes e drivers serem bons — selenium –, o projeto acústico era um lixo, e as potências eram de dar dó, não chegavam nem perto de fornecer a proporção correta de RMS para tocar os falantes, resultando em uma música inequalizável, horrível e distorcida, com o amplificador clipando o tempo todo e quase derretendo.

hack de som antigo

Queria um som que fosse full-range em todas as caixas, e não separado para cada freqüência. Fuçando no site da selenium, achei um projeto de caixa que deu certo com o que queria. O side-fill SF1, que basicamente é uma caixa trapezoidal com 3 câmaras, das quais 2 são dutadas. Uma para 18″ e outra para 15″, e uma para o driver.

side fill SF1 selenium
projeto selenium side fill SF-1

woofer wpu1807 selenium

woofer wpu1507 selenium driver titanium d3300ti selenium
WPU 1807 WPU 1507 d3300TI

Apesar de trabalhoso, gostei da simplicidade elegante do projeto, mas não gostei da falta de médios, que ficariam por conta do falante de 15″, que é grande demais para reproduzi-los com fidelidade, o que resultaria no mesmo som podre que tinha com as caixas antigas: buracos nas faixas de corte das freqüências, principalmente de médios para agudos.

caixa side-fill sf-1 original selenium

Então vi que dava para encaixar um midbass na câmara superior, junto com o driver de agudos, deixando os falantes grandes para os socos no peito brutais e os outros para as sutilezas e nuances. O protótipo que bolei foi este:

midbass 10mb1p selenium
midbass 10mb1p

 

caixa side fill adaptada

Tive que fazer uma divisão interna na câmara superior porque o midbass funciona com mais ou menos 25 litros, e ela tinha quase 50 litros, algo que me tomou bastante tempo pelo formato trapezoidal e as dimensões muito justas e pouca margem para erro.

Depois de entupir o quarto de serragem, centenas de parafusos, dedos em carne viva, finalmente vi o photoshop virar realidade em mdf. Aproveitei a parte de trás da câmara separada para colocar o crossover nênis, que faz a separação das freqüências para cada dispositivo sem precisar me matar com crossovers ativos irritantes, barulhentos e complicados.

crossover passivo df953ti nênis
crossover passivo DF953TI Nênis

Parece complicado, mas não tem mais segredo que montar as lâmpadas de natal — entra um sinal, saem três já adequados para o que cada falante é capaz de reproduzir. A divisão dele fica em 50 / 400 hertz para os falantes de 18″ e 15″, 400/1700 hertz para o midbass e 1700/25000 hertz para o driver titanium, mas que provavelmente só morcegos conseguirão ouvir. Eu só ouvi até os 16.000 hertz, já a flávia estava reclamando do maldito barulho até quando estava em 20.000 hertz. Culpa do meu vício por bombinhas na infância.

Calculando tudo, deu 1375 RMS por caixa, e, com 4 caixas, 5500rms. Nada mal, mas para tocar isso é necessária uma potência com pelo menos o dobro da capacidade dos falantes, visto que a música é exatamente caracterizada pelos picos, e não por um zumbido. Como as minhas potências antigas não chegavam nem perto disso, fui atrás de algo que desse conta do recado, e achei a Z10 da Studio-R, que tem 10 mil RMS.

potência studio-r z10

Como todo audiófilo sabe, potência não signifia nada sem uma equalização decente. Também precisava regular isso, que já começou a virar um monstrinho. Como equalizar manualmente é um saco infindável que acaba com o prazer de ouvir a música, achei o ultracurve da behringer, que faz isso automaticamente usando um microfone próprio. Ele solta um ruído — o mesmo da tv fora do ar — e, a partir dos ecos do cômodo, calcula os ajustes automaticamente, entre outras mil coisas que esse aparelho parece fazer, essa foi a que mais me interessou.

ultracurve behringer

Tudo isso será controlado por um sistema sem fio a partir do notebook, o que é uma grande vantagem por não precisar ficar fuçando na mesa de som ao lado das caixas, o que deixa surdo e dá uma dor de cabeça maldita.

O projeto ainda está um pouco longe de estar pronto, mas já chegaram as alças, biqueiras e as cantoneiras para o acabamento. Depois de serrar tudo e parafusar, só faltará pintar as caixas e fazer a fiação interna, que é a parte mais rápida e a de que mais gosto.

E então finalmente poderei sentar na frente do computador, ligar o winamp, mandar um Slayer e ter a mesma sensação de estar no show sem precisar enfrentar nenhuma fila.

slayer

Ainda não decidi se vou batizar o som de mindfuck. Estou pensando em algo menos imbecil. Se alguém tiver sugestões, deixem nos coments.

Agora vou pegar minha serra e começar a picotar as cantoneiras que chegaram hoje. Assim que houver algum progresso considerável, posto as fotos atualizadas.

 

 
 
 
 
 
 

introdução

[phsr] logo          o presente estudo é resultado do esforço dos mais proeminentes pensadores do mundo atual e da junção dos esforços de inúmeras universidades — tais como BTU (boring town university), USJBR (university of saint joseph of black river) — e instituições de pesquisa, a saber, CIDCTA (conselho internacional de desenvolvimento científico, tecnológico e absurdo.), FATE (fundação para o amparo do tédio) e CEAAPI (centro de estudos altamente avançados para o progresso da ironia).
          o ‘projeto homo sapiens revisitado’ é uma tentativa — em vão — de alavancar o avanço do conhecimento humano em relação a sua origem, evolução e futura bancarrota. o mundo é coisa antiga (que o digam os geólogos), e, por isso, diversos entraves favorecem o desfavorecimento de evidências sensatas.
          todavia, intenso, doloroso e saudosista, o presente estudo conseguiu reunir informações úteis para possíveis hipóteses sobre a posição do homem no planeta e o real significado de seus atos.
          não se trata, pois, de pessimismo; e sim de uma constatação da realidade. ante a tortura das tendências e dos impulsos, os realizadores do ‘projeto homo sapiens revisitado’ admitem que as semelhanças em relação aos fatos em estudo e as torpezas em se tratando das conclusões extraídas não são, em hipótese alguma, mera coincidência.
          se o mundo e o homem fossem exatamente como a sensatez aponta — sem traições lógicas ou absurdos metafísicos — considerariam o bom senso egoísta ou culpado? o estudo a seguir comprova que ambos os adjetivos são possíveis.

homo sapiens: classificação científica

          reich: animalia
          subreich: metazoa
          filo: chordata
          subfilo: vertebrata
          classe: mammalia
          (des)ordem: primates
          família: hominidae
          (de)gener(açã)o: homo
          espécie: h. sapiens
          nome binomial: homo sapiens
          nome real: homo demens

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fig.1: árvore filogenética. diversos estudos apontam ancestrais comuns entre o animal humano e outros animais.

          o ser humano tem muitas definições, sejam elas biológicas, sociais, políticas, filosóficas et caetera. à luz da biologia, o homem é classificado como homo sapiens (sic), ou seja, “homem racional” (sic), “homem sábio” (sic). é um primata bípede a fazer parte da superfamília hominoidea, juntamente com outros símios não menos importantes, a saber, chimpanzés, gibões, gorilas e orangotangos (além de outras espécies atualmente extintas — ou ainda não catalogadas em virtude do receio humano pela concorrência).
          hominoidea é uma superfamília de primatas que divide-se em duas famílias, oito gêneros, vinte e uma espécies e mais de seis bilhões de bestas. os hominoidea apresentam maior diversificação em relação aos seus parentes mais próximos, os macacos cercopithecoidea. observa-se uma grande variação no tamanho corporal (dos gibões asiáticos aos imensos halterofilistas humanos) e na cobertura do corpo (da densa cobertura de pelos dos gibões aos trajes de gala do homo demens (doravante “homo sapiens”, para efeito de sátira).
          os gibões movem-se pelas árvores através da braquiação (balançando de um galho a outro, utilizando as mãos para agarrá-los), apresentando versatilidade e destreza. os homens movem-se com o apoio das duas pernas, sem que apresentem muita versatilidade e destreza; caso tenham idade avançada, utilizam uma haste de madeira ou metal chamada bengala; caso sejam machos dominantes, locomovem-se sobre rodas motorizadas, aves de metal, entre outros.
          somente os seres humanos, entre as formas atuais, apresentam uma postura ereta e bípede de locomoção a passos torpes, envolvendo uma estrutura especializada da pélvis (muito requisitada para as conquistas sexuais) e dos membros inferiores, deixando assim os membros superiores livres das funções obrigatórias de suporte, equilíbrio e locomoção para poderem realizar outras funções vitais, tais como realizar atos obscenos com os dedos, chamar o garçon ou, no caso dos machos, segurar o pênis no momento da micção.
          por vezes, em filosofia, mantém-se certa distinção entre as noções de pessoa e de ser humano (ou homem). esta refere-se à espécie biológica enquanto aquela refere-se a um agente hipócrita. segundo a perspectiva de john locke, a noção de pessoa engloba uma coleção de operações e ações mentais. o termo pessoa poderá, assim, ser utilizado para ser feita referência a seres mitológicos, inteligência artificial, seres extraterrestre e insanidades do gênero ou, não menos importante, aludir a algum poeta brilhante.
          uma importante questão da teologia e da filosofia da religião diz respeito à dúvida sobre deus ser ou não ser uma pessoa. uma importante questão da lógica diz respeito à dúvida sobre os teólogos e os filósofos da religião serem realmente pessoas.

surgimento e evolução da espécie

          ao longo da história humana, desenvolveram-se diferentes concepções acerca do surgimento do homem — sejam elas míticas, religiosas, filosóficas ou científicas —, cada uma com sua própria explicação, elaborada ou sem nexo.
          povos mesopotâmicos acreditavam que o homem surgiu da terra, feito uma planta — o que, ainda hoje, é corrente em bares e botecos, onde os homens tentam (re)nascer regando a si mesmos. o povo acádio afirmava que o primeiro homem era filho de um deus; todavia perdera a imortalidade. ainda hoje, alguns povos crêem que o homem, moldado a partir da lama, surgiu à imagem e semelhança de um deus, criando as mulheres a partir de uma costela do homem e expulsando os dois depois de comerem uma maçã. (este mesmo povo também acredita que os coelhos botam ovos.)
          para o grego hesíodo, a mulher tornou-se responsável por todos os males da humanidade depois de abrir a caixa de pandora — pensamento que atualmente foi desmistificado ao ser constatado que os males da humanidade existem porque schopenhauer os trouxe à tona.
          em se tratando de teorias lógicas — mas não menos sádicas —, a origem do homo sapiens encontra-se, hoje, explicada pela teoria da evolução das espécies, proposta por charles darwin, amplamente escorada por fatos científicos e odiada pelas mesmas pessoas que acreditam nos coelhos e seus ovos. se num contexto religioso a origem do homem se explica com certa intervenção divina, num contexto sensato o ser humano originou-se com certo desdém da natureza em seus meandros evolutivos.
          na busca pela origem do homem, a arqueologia, a antropologia e a idiossincrasia tiveram papel preponderante. a cada ciência seguiu-se o papel de desvendar certas questões menores a formarem hipóteses para a questão magna, a saber, de onde, raios, viemos? dos fósseis encontrados, foi possível determinar uma filogênese desagradável o bastante para fazer o papa papar moscas. a cada registro fóssil encontrado, maiores detalhes foram se agregando para desembocar no que hoje temos como a teoria — ainda que incompleta — acerca de nosso surgimento.

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fig.2: em escavação, arqueólogo encontra o fóssil de um ancestral humano.

          dentro deste rol de evidências, descobriu-se que humanos e chimpanzés começaram a divergir somente há cinco milhões de anos. embora muitos cientistas já tenham notado a proximidade entre os homens e os grandes macacos, recentemente esta afinidade foi melhor estudada. verificou-se que 98,9% da seqüência de pares de bases do ácido desoxirribonucléico são similares entre o homem e seus parentes mais próximos. a fração divergente engloba genes responsáveis pelas conquistas sexuais pervertidas, calotes no imposto de renda e adaptação fisiológica para digerir uma feijoada.
          todavia, nenhuma pessoa é capaz de confundir um homem com um macaco, exceto se for míope ou se tiver o intuito de ofender nossos ancestrais. sob a égide das comparações morfológicas entre chimpanzés e humanos, várias diferenças podem ser apontadas com facilidade, sejam elas a postura, a descompostura, a locomoção, as obscenidades verbais, os devaneios sexuais, entre outras. a existência de dois gêneros separados para esses organismos decorre das diferenças apontadas acima, e, é claro, pelo fato de os classificadores serem seres humanos arrogantes e amantes de idealismos sexuais.

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fig.3: quadro filogenético humano (clique para ampliar). os ancestrais já descobertos são insuficientes para excluir todas as lacunas ainda existentes. entretanto, pode-se notar que o grau de evolução não se alterou suficientemente para evitar erros de comparação intelectual entre o homo demens e o ardilopithecus pravus (em latim, depravado [para mais consultas, acesse o dicionário de latim da universidade de phoenix]).

          independente dos pensamentos possíveis, percebe-se que cada vez mais o ser humano é considerado pela ciência como apenas mais uma espécie, o que possibilita a insurgência de oposições e críticas preconceituosas de alguns pesquisadores beatos e da massa social disforme e acéfala.
          o botânico suíço carl von linné, criador da taxonomia moderna, recebeu severas e inúmeras críticas por colocar o homem no mesmo reino que os cães, os ornitorrincos e as hienas. (ao menos descobriu-se, depois, por que as hienas riem.) thomas huxley, naturalista inglês, reconheceu uma ampla afinidade entre símios e seres humanos; utilizou suas descobertas, depois, para ridicularizar um vigário vigarista e defender charles darwin. este, o maior de todos os evolucionistas, especulou o suficiente para fazer qualquer homem rir de sua posição na natureza.
          fica clara, por fim, a tendência científica de retirar do homem a ilusão de sua magnificência, entendendo-o como apenas mais uma espécie com algumas poucas características mais complexas que os demais organismos (seja ela a capacidade de diferenciar e nominar um abacaxi e um limão) e outras menos desenvolvidas em relação a outras espécies (tais como tirar cera do ouvido).

habitat e migração

          de acordo com as teorias mais comumente aceitas e menos comumente torpes entre os antropólogos atuais, o homo sapiens teve origem nas savanas africanas entre cento e trinta e duzentos mil anos atrás. descendente do homo perfidiosus, condenou, ou melhor, colonizou a eurásia, a eutanásia e a oceania quarenta mil anos atrás, vindo a colonizar as américas há apenas dez mil anos.

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fig.4: quadro da migração humana baseado em estudos de arqueólogos e paleo-antropólogos. a áfrica é vista como o berço do homo sapiens que, posteriormente, irradiou-se para a europa, ásia, oceania, américas e, posteriormente, lua.

          levando-se em conta que existe vida no planeta terra há mais de três bilhões e meio de anos, pode dizer-se que o ser humano é uma espécie recente, embora seja uma espécie demente. para efeito didático, pode-se tecer o seguinte paralelo: se existisse vida há 10 dias, o homo sapiens teria surgido no último minuto na áfrica, há apenas um segundo na eurásia e oceania, há um quarto de segundo nas américas e há um milésimo de segundo nos prostíbulos das grandes cidades.
          o homo sapiens ocupou o lugar do homo impudens, do homo vulgaris e de outras espécies do homo inabilis devido à sua capacidade superior de reproduzir-se, maior competitividade acerca dos recursos naturais, melhor adaptação aos conflitos sexuais e maior destreza frente ao canibalismo financeiro.

anatomia e fisiologia

          os seres humanos adotam uma postura ereta, além de possuírem um cérebro bem desenvolvido (a ponto de ter criado o abridor de latas e o peso de papel), o que lhes proporciona capacidades diversas, tais como o raciocínio abstrato (que favorece a imaginação de fantasias sexuais), a linguagem (a permitir a criação da poesia e a troca de insultos) e a introspecção (que permite ao homem uma desculpa para tornar-se filósofo).
          o homem apresenta locomoção bípede completa, com exceção dos coxos, dos mancos e dos que sofrem de unha encravada. este fato proporciona a utilização dos membros anteriores para a manipulação de objetos (e. g., controles remotos e bolas de boliche) por meio da oponibilidade dos polegares. os humanos variam substancialmente em relação ao peso e estatura, conforme a localização, a idade e os aspectos histórico-sociais. apesar de o peso ser amplamente determinado pelos genes, é, também, influenciado em demasia pelos hábitos alimentares, exercício físicos e e estado civil.
          comparando-se com a pele de outros primatas, a pele humana possui menor pelagem. a cor dos pêlos e da pele é determinada pela presença de pigmentos. nos humanos atuais, tal coloração pode variar desde o rosa pálido até o castanho escuro — o que permite uma série de considerações arrogantes sobre supremacia de raça e outros conceitos petulantes. devido aos humanos serem bípedes, a coluna vertebral e a região pélvica tendem a sofrer desgaste, criando, pois, dificuldades locomotoras em indivíduos mais idosos e em quem imita o elvis presley.
          a necessidade individual de uma administração regular de comida e bebida é proeminentemente refletida na cultura humana. a falha na obtenção de comida leva ao estado de fome e, eventualmente, ao de inanição. (sofrem com isso os assaltantes de geladeira e afins.) por sua vez, a falha na obtenção de bebida leva à desidratação e ao estado de sede, proeminente em desafortunados perdidos no meio de um deserto e alcoólatras. tanto a inanição como a desidratação podem levar à morte se não forem combatidas: o ser humano pode sobreviver cerca de dois meses sem comida, mas somente cerca de três dias sem bebida (ou duas horas, para o caso dos bêbados).

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fig.5: esquema de uma célula humana. as organelas imersas no líquido viscoso do absurdo fazem parte do maquinário celular, comandado pelo desespero.

          o corpo humano está sujeito a várias patologias e ao processo de envelhecimento, o que lhe confere fragilidade e cuidados especiais, tais como medicamentos para o combate de doenças e produtos cosméticos para encobrir o óbvio. em algumas sociedades mais modernas já é possível o combate à senilidade por meio de intervenções cirúrgicas (em se tratando do aspecto físico) ou o uso de pílulas azuis (em se tratando do aspecto sexual).
          para um homo sapiens conhecido como gilles deleuze, um corpo pode ser controlável, pois a ele podem ser atribuídos sentidos lógicos. somos, para deleuze, máquinas desejantes — o que resume, em teoria, qualquer visita a um shopping center. para merleau-ponty, outro famoso hominídeo, o corpo é o espelho de outro corpo. todavia, este não é o tipo de pensamento que agrade àqueles que se deparam com uma múmia.

          algumas curiosidades

          um ser humano perde cerca de quarenta a cem fios de cabelo por dia. o stress aumenta este número.
          o cóccix, na base da espinha, é tudo o que nos resta das caudas dos nossos antepassados. há quem acredite que a selvageria também permaneceu.
          os músculos do coração criam pressão suficiente para esguichar sangue a mais de nove metros — o que é um ótimo detalhe para os diretores de filmes de terror.
          em média, um maço de cigarros tira duas horas e vinte minutos de vida de uma pessoa. em média, quem fuma dá de ombros para este tipo de estatística.
          quando chegamos aos setenta anos, já respiramos ao menos seiscentos milhões de vezes. para quem fuma, o número é bem menor — mas é outra estatística para ficarem indiferentes.
          o coração de um embrião começa a bater durante a terceira semana de gestação — se a mãe não tiver tomado a pílula do dia seguinte.
          a dor de dentes é a dor mais forte de todo o corpo humano; as mulheres dizem que é a dor do parto; os recém-nascidos diriam que é a dor de nascer.
          rir durante o dia faz com que durmamos melhor à noite. rir durante a noite faz com que notemos a insônia.
          o músculo mais potente do corpo humano é a língua, o que garante um pretexto para o sexo oral.
          tal como as impressões digitais, a superfície da língua é diferente de pessoa para pessoa. eis outro pretexto para o sexo oral.
          o coração de um recém-nascido bate entre cento e trinta e cento e quarenta vezes por minuto; o de um adulto, entre sessenta e oitenta vezes; o de um morto, nenhuma vez (a não ser que se use o desfibrilador).

o homem como ser pensante

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fig.6: o homem vitruviano. ilustração feita a partir do documento original de leonardo da vinci (do gênero homo e verdadeiramente sapiens)

          (eis uma seção conturbada e discutível frente aos muitos exemplos proporcionados pelo homo sapiens enquanto ser vivo. em teoria, a racionalidade do ser humano torna-se o cume da portentosa montanha da evolução; mas a prática é distinta quando apresenta-nos um caráter parco, risível e pautado sobremaneira na tartufice. dentro de preconceitos e crenças absurdas, o homem desmascara-se quando se esquece de agir segundo o cinismo necessário para encobrir tais traços. esta dissimulação é o que faz as pedras serem pedras e os homens, rudimentares.)

          a mente humana tem várias características distintas. é responsável pela complexidade do comportamento humano, especialmente a linguagem e o enlevo do ridículo. a curiosidade e a ciência levaram ao aparecimento de um sem-número de explicações para a consciência e a relação entre a mente e o corpo. a psicologia, em seu ofício, estuda tais manifestações e relações sob o ponto de vista científico. as perspectivas religiosas, em contrapartida, enfatizam geralmente a existência de uma alma a ser a essência do ser, associada à crença em deus, deuses, espíritos, gnomos, espaguetes, entre outros.
          em outro extremo, a filosofia tenta, sem muito êxito, sondar as profundezas de cada uma destas perspectivas. disso decorre um grande aparato técnico para desvendar toda a complexidade e alcance do homem enquanto ser pensante. há rumores de que heidegger, um filósofo — mas há quem acredite ser um ente metafísico —, respondeu muitas das questões sobre o ser e a consciência. no entanto, o filósofo não conseguiu responder a crucial pergunta, a saber, sua própria filosofia seria entendida?
          a consciência, uma qualidade da mente ou uma condenação ao desespero, abrange atribuições tais como subjetividade, auto-consciência, sapiência, e a capacidade de perceber a relação entre si e o ambiente. aos bêbados, isso não tem muita importância.
          por sua vez, a razão é a faculdade de raciocinar, compreender, julgar. tendo em mente as ciências jurídicas, temos uma contradição: um julgamento se faz por homens que pensam serem racionais dentro de um mundo próprio racionalmente inerte e duvidoso.
          empregada no campo filosófico, a razão comporta uma série de significados, a saber:
                    a. a razão como característica da condição humana;
                    b. a razão como princípio pelo qual as coisas são o que são, sem desculpas;
                    c. a razão como diálogo, com conteúdo permanente, o conhecimento de si mesma e da essência de todas as coisas, do universal;
                    d. a razão como método que permite, pela discussão, chegar à síntese depois de atropelar a tese e rir da antítese.
                    e. a razão como conversa para ruminante adormecer.
          há quem pense ser a razão subordinada à fé, haja vista que o critério supremo da verdade é a revelação divina. nesses termos, a razão é tida como instrumento não de demonstração, mas de afirmação da fé — e a fé como instrumento de ridicularizar a razão.
          durante séculos, os filósofos buscaram uma definição exata do que é o homem, sendo, talvez, a mais conhecida aquela que o descreve como um bípede implume. aristóteles a concebeu quando afirmou que o homem é um animal racional (mas este não foi seu único erro). é na filosofia de hegel que se encontra a primeira tentativa de introduzir a razão na história. mas é na história que se vê a primeira tentativa do homem de ignorar a razão.

a história do homem

          o homo sapiens é uma espécie eminentemente sociável (em teoria), capaz de criar sociedades sobre estruturas complexas (em teoria), compostas de muitos grupos cooperantes e competidores (mais competidores que cooperantes).
          na tentativa de compreender e manipular o mundo ao redor, o ser humano desenvolveu um conhecimento tecnológico ímpar, capaz de exterminar uma cidade inteira a partir da reunião de uma equipe de físicos, matemáticos e uma porção de urânio. estas instituições levaram ao surgimento de artefatos em comum, crenças, rituais, valores, mitos e leis que, em conjunto, formam uma cultura de massificação e estultice.
          entrementes, a história é o estudo da ação humana ao longo do tempo, a partir de concomitante estudo dos processos e dos eventos ocorridos no passado. a intenção disso, dizem os estudiosos, é a de poder melhorar o amanhã a partir das experiências pretéritas. depois de duas guerras mundiais, bolsões de fome e miséria e o ainda vigente e conhecido egoísmo geopolítico das nações, resta saber quando será que tais melhoramentos serão postos em prática.
          o estudo histórico se inicia quando os homens encontram elementos de sua existência nas concretizações dos seus antepassados — por inveja ou qualquer que seja o motivo. do ponto de vista europeu, a história divide-se em dois grandes períodos: a pré-história e a história. para esta última, nos resta uma breve análise.

          as civilizações do passado

          a antigüidade compreende os fatos históricos entre quatro mil a.r. (antes do ridículo) e 476 d.r. (depois do ridículo), quando ocorreu, então, a derrocada do império romano do ocidente. é estudada com estreita relação ao oriente (sobretudo no chamado crescente fértil), onde floresceram as primeiras civilizações, atraídas pelas condições agrícolas e pela liberdade frente à inexistência, na época, da especulação imobiliária. neste espaço geográfico, surgiram as culturas egípcia, palestina, mesopotâmica, iraniana e fenícia.
          o período antigo abrange, ainda, as chamadas civilizações clássicas, a saber, grécia e roma, caracterizadas pelo escravismo, pelas guerras e pelo avanço científico e cultural. pode-se dizer que a atualidade consumou-se tendo como fundamento todo o conhecimento adquirido por essas civilizações precoces. o homem atual torna-se, por isso, um meliante.

          a transição para o presente

          a chamada idade média abrange o período que se estende de 476 d.r. até 1453, quando ocorre, então, a conquista de constantinopla pelos turcos-otomanos. é estudada em relação às três culturas então em confronto na bacia do mar mediterrâneo. caracterizou-se pelo modo de produção feudal, pelo regime de servidão e, claro, pelas guerras.
          a idade moderna, de 1453 até 1789 (data da revolução francesa), compreende o período da invenção da imprensa, dos descobrimentos marítimos, pelo renascimento cultural e urbano, pela opressão social e, claro, pelos conflitos armados. sua característica mais importante aos dias atuais diz respeito nascimento do modo de produção capitalista, no qual os homens acumulam capital para comprar iates, macarrão instantâneo e serviços sexuais.

          o homem contemporâneo

          a chamada idade contemporânea compreende a época entre 1789 até aos dias atuais. envolve-se de conceitos tão diversos quanto o grande avanço da técnica, dos conflitos armados de grandes proporções e da chamada nova ordem mundial. tem como características a exploração humana, o abuso de poder, os conflitos irrisórios e, sem dúvida pelas ocasiões bélicas e seus pretextos vazios.
          destarte certa tristeza evolutiva, é de se lamentar que ainda hoje é possível encontrar caminhando entre os homens espécimes de homo sapiens (sic, sic, sic) que, se vistos à luz da evolução, têm de ser considerados o ápice da cadeia evolutiva. assim, somos nós obrigados a acreditar — e a lamentar — que muitos daqueles que nos cercam são o resultado da seleção natural e, mais do que isso, da disputa incessante pela sobrevivência (não só a partir das qualidades biológicas, mas — o que torna o fato triste — das qualidades intelectuais).
          talvez estes traços de erro da história da humanidade tenham sobrevivido à sombra dos h. sapiens verdadeiros, feito hienas perdidas; o que nos leva a concluir que deve-se ter como natural o fato de podermos nos deparar com tais seres abstrusos ao abrir a porta de casa.

          o amanhã do homem

          intervalo de tempo que se inicia após o presente, o futuro não tem um fim definido. tampouco o presente. o futuro é utilizado na mecânica clássica para tratar daquilo que está por vir, além de ser utilizado pelos pessimistas para falar daquilo que, com o devido tempo, ocorrerá. na mecânica quântica, a idéia de futuro já não mais existe, pois este atua de forma atemporal. e da mesma forma para os loucos.
          por se tratar daquilo que ainda não ocorreu, o amanhã do homem é comumente tratado sob os auspícios das hipóteses. todavia, a espécie humana é magna em ressentimentos e devaneios, dando a si a possibilidade de tratar do futuro como banalidade e esperança. aos poetas e escritores fica a petulância de cantá-lo; aos amantes da metafísica e das arte divinatória, fica o humor e o rumor das previsões ridículas.
          o homo sapiens, em seu momento atual, comporta mais de seis bilhões de espécimes. os intelectuais crêem ser a extinção uma realidade muito distante; já os intelectuais sérios acreditam que a espécie humana tem seu aniquilamento programado para mais algumas décadas. o porvir, como se nota, é realmente humano: equívoco, cômico e possivelmente impossível.

considerações finais

          sejamos sensatos para aceitar, definitivamente, que somos o upgrade do macaco. entendamos de vez que o contrato social do homem é uma invenção de dominação, e que é necessário — e nunca foi tão preciso — ver o mundo além das classes inventadas pelo homem, como um organismo que dilata e retrai imagens do inconsciente, compreendendo que essas imagens são fruto de um passado que não morre.
          façamos um favor à espécie humana: trazer à tona o elemento primitivo do homem que o une a tecnologia do século xxi, ter apego ao tecnobarbarismo que se vê hoje em dia mas não se aceita. que, enfim, possamos ser mais do que uma máquina funcionando no mundo, um funcionário a funcionar em sua função; que possamos contribuir para a idéia que rejeitam — de propósito — que morremos arcaicamente em becos escuros, desprotegidos e cansados, da mesma forma que nascemos: inseguros, fadados ao indeterminismo da vida, dentro dessa natureza que nos cerca.
          a partir de afinidades químicas e esquizofrênicas, cortemos a cultura urbana, espalhemos certa espécie de vírus que varra a estupidez e o olhar cerrado, eleve a expansão da consciência a partir do universo cotidiano de cada um, abrindo suas portas e, para citar huxley, suas portas da percepção — ainda fechadas. que sejamos ultrapassados quando for a hora; racionais no momento certo; partir para um universo irracional assim que necessitarmos, onde guardaremos os silogismos na porta de entrada e levaremos cores, sons, blocos de mármore a esculpir nossos problemas e edemas, as angústia, os catarros mentais, afrouxando certas correntes que nos sufocam, como o artificialismo social do homem, suas leis, sua burocracia, que não fizeram parte, em momento algum, da revolução ontológica do macaco.
          nós, máquinas moles, paranóia coletiva com seus fantasmas, iremos despertar da inércia do cotidiano. expandir qualquer ação fundamentada em sua base contraditória. e assim, sermos sensatos para aceitar, definitivamente, que somos o upgrade do macaco. o homem, esse babuíno aperfeiçoado, está se deteriorando em suas paixões e desejos simulados, formas estas de não sucumbir perante a pobreza de sua cultura, à frente da penúria luxuriante de sua mendicância.

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          ERMÜDET, Arthur. Genetics and the making of Homo sapiens.
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          NUTTELOOS, James. In the Footsteps of Eve: The Mystery of Human Origins.
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          ONTMOEDIGD, Friedrich. The “Eve” hypothesis: a genetic critique and reanalysis.
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