ADC taedium vitae
Álbum de fotos Álbum de smiles Álbum de tattoos
[a sublimidade de desperdiçar uma vida que podia ser útil] 
   
 
 
 

humanperiodictable_small.jpg
clique para ampliar

 

 
 
 
 
 
 

Chapter 1 - on the essence of the book itself

The book is the table.

End.

 

 
 
 
 
 
 

dark wizard: dragon rider versus arliman

Caso não tenha entendido, admita: não sou nerd!

 

 
 
 
 
 
 

Tudo é versão. Há outras versões além da nossa.
(Paulo Francis)





          Nos tempos da Grécia Clássica, o traço mais importante da Ética repousava no conceito de arethé (excelência, virtude), que relacionava o predicado de tudo o que era bom dentro de seu próprio contexto: a excelência do cultivo de uma plantação, a virtude intelectual do homem sábio, a coragem como valor do guerreiro. Ao trazer para os dias atuais esta concepção, deparamo-nos não apenas com um problema de tradução, mas, sobretudo, com diferenças conceituais entre a visão da antiga Hélade e a perspectiva de nosso Ocidente — em relação a como agrupar características distintas demais daquilo a que se referem. Com o devido tempo, as palavras não servem mais como sinônimos, pois há culturas que nem sempre se completam e há passados que podem sempre mudar. Ainda que tivéssemos uma tradução precisa, a arethé não teria, hoje, correspondência quanto ao seu significado pragmático. Os tempos são outros, e se no princípio era o verbo, com a chegada do verbo (e da verba) mudaram-se os princípios.
          Assim, o interesse pelas superfícies em detrimento das profundezas fez do homem, este invasor do século XXI, uma espécie limitada — para não dizer covarde. Não fosse essa sujeição ao medo, seria maior a pretensão de se mergulhar em águas abissais (mesmo com ausência de luz e sob a forte pressão das grandes profundidades). Um breve olhar sobre a época contemporâneo mostra que a ousadia intelectual perdeu parte de sua força; agora, não é o bastante: o que mais se assiste é o nadar-com-a-corrente em um maremoto qualquer. Não foi, todavia, por falta de necessidade, tampouco por faltar desejo; ocorre que o medo de afogamento tornou-se mais forte que a coragem de prosseguir em busca das profundezas. Faltam, pois, maiores pulmões ou nos sobra pouco oxigênio?
          Nesse ínterim, o que há no cerne da verdade para que seja tão natural, em nossos dias, fantasiá-la com esquecimentos e distorções? Seríamos nós o seu reflexo igualmente adornado — mas com sucessivas máscaras? De que forma, então, despi-la? E de que forma, principalmente, nos despir? Filha da insatisfação, a inteligência nunca admitiu, quando praticada, a proibição do direito ao raciocínio, ao senso crítico, ao livre-pensar. Esta proibição não está no pensamento, ainda que dele seja fruto. Exterior a nós, o não peremptório não se nota: um véu lançado à frente condenou as perspectivas. Como, portanto, entender o mundo se proíbem o olhar? Ora, da mesma forma que o girar do mundo nos impede de sonhar — e, no entanto, sonhamos —: Sapere aude, ouse usar a própria inteligência (pois as respostas, estas não chegarão fáceis com o soprar do Zéfiro).
          Claramente, aquele que tem o direito (e o dever ignorado) de pensar vê-se, inevitavelmente, diante de um espaço social repleto de estorvos e estouvados: à sociedade, nada é mais cômodo do que não pensar. A civilização atual, erigida como é a partir do contato humano, tem o caráter que sempre possuiu: magros discursos malogrados, batalhas sem grandes conclusões, um império de ideologias convencionais; e para cada pastor, um rebanho essencial — a temer um cajado qualquer. Nesse meio, o indivíduo crítico pode tomar dois rumos, quais sejam, o consenso ou o com-senso, a excrescência ou a excelência: ignorar sua força crítica ou ser um tanto quanto maquiavélico: antes ser vil que servil. Questão de escolha. No caso da última alternativa, é mister saber que os muros de Berlim não nutrem simpatias por quem tenha a pretensão de se aproximar com uma marreta, posto que houve, há e, com o perdão da pretensão, haverá sempre uma espécie de Guerra Fria nas entrelinhas das civilizações (ainda que não seja devidamente registrada pela História). Para os (per)seguidores do senso crítico, as idéias brotam, sem reconhecimento de propriedade e sem qualquer respeito hierárquico pela cabeça de onde nascem, umas pelas outras e por estranhos meios, sem que sejam formalmente apresentadas, de modo que torna-se uma empreitada delicada, perigosa e instável revelar o suficiente sobre o que entendemos como importante, da mesma forma (e diretamente proporcional) que torna-se ameaçador fazer revelações em demasia acerca dos fatos relevantes — pois há sempre uma sedução, uma repressão qualquer a espreitar o primeiro indício de intenção.
          Para quem, por outro lado, prefira ignorar o senso crítico, é interessante que tenha em mente aquilo que bem salientou James Abraham: quem não pensa é pensado. E ser pensado, aqui, nada mais é do que a situação de se estar à mercê da maré. Afinal, homem ou plâncton? A biologia tem sua resposta; os noticiários, por sua vez, têm a sua interpretação. Informado e enformado, o indivíduo indiferente não se importa em consumir a imundície imediatista e quaisquer verdades intuídas, enlatadas e prontas para consumo. A antiga virtude grega transformou-se, pois, em fresco vício — uma mercadoria que, a cada edição diária do amanhecer, fortalece a hipótese de que seja um produto não-perecível. Garganta abaixo, o ranço escorre feito novidade, verdade inconteste, enquanto os grupos gracejam: têm tudo de tal maneira organizado que o amanhã será sempre a véspera de qualquer propósito tão inútil e irracional quanto o agora. Mas disso não sabem, pois, como asseverou o tal filósofo alemão que, atualmente, é mais citado do que lido, “a humanidade gosta mais de ver gestos do que ouvir razões.”
          Toda forma de impostura imposta, de poder ilegítimo, de fato deformado, é um acorde a mais para o ragtime das massas. Assim, dificilmente a palavra omissão se encaixa melhor em outro contexto que não seja no calabouço da mídia. (Exceções existem, faça-se justiça, pois a política é uma forte concorrente.) A alienação, antes de ser uma palavra a mais em meio às vísceras de um dicionário, tornou-se uma realidade cínica, imersa que está em um momento histórico no qual nunca houve tanta liberdade de expressão — ao mesmo tempo em que nunca se fez tão mau uso desse livre-arbítrio, esta postura desperdiçada ante a vaidade das conveniências. O que se assiste, antes de um transitar de opiniões pessoais, é o multiplicar de idéias conquistadas por osmose, a preços módicos, mínimos, quase gratuitos. Mais que por uma questão de comodidade intelectual do que de economia doméstica, poucos são aqueles que, de fato, são a fonte de seu próprio dizer: um panorama de “perfeita prostituição mental”, poderíamos dizer — mas não sem certo desconforto.
          Um desconforto que diz respeito sobretudo à possibilidade de que, ao títere dos fatos, ao fantoche das notícias distorcidas, à marionete das realidades deformadas, não lhe tenha resistido ao menos um resíduo de desejo para ser possível desatar o nó górdio da sua situação de alheamento: talvez ocorra que ao individuo sedento por uma gota mamífera, a mama da mentira é a oportunidade gratuita que mais lhe apetece diante da confortável e acolhedora predisposição ao mínimo esforço mental. Uma situação complicada, sem dúvida, pois quem saberia o que é estar a passos de um abismo sem fazê-lo? Quem poderia vislumbrar a paisagem de um dia sem que, para isso, abrisse os olhos pela primeira vez? Platão e seu Mito da Caverna que o digam. E a imaginação, nesse caso, não tem serventia, pois se limita a elaborar desvarios a partir de experiências consumadas. Ou consumidas.
          O saber e o crer, isto é, o compreender e o acreditar, são líquidos imiscíveis. E se tudo é versão de algo, a ousadia de chafurdar no curso lodoso do atualmente faz-se condição essencial para que, bem ou mal, o ouro de aluvião seja encontrado em meio à lama moldável das incoerências. Percorramos, pois, o rio que corre entre as margens do erro; sem receios, mas com porquês — muitos, incontáveis porquês, pois sem eles não haveria rio, nem margem, nem foz, nem erro. Nem nós. Olhe, mas não se iluda; leia, mas não se engane; veja, mas desconfie. E se depois disso não houver aplauso, basta recordar-se de Fócion, que compreendeu perfeitamente bem quando, ao ser aplaudido por uma multidão, perguntou o que tinha feito de errado.



aaawareness.jpg

 

 
 
 
 
 
 

Albert Camus

camus_banheiro.gif

Aristóteles

aristoteles_semaforo.jpg

René Descartes

descartes_vinho.jpg

Michel Foucault

foucault_poker.jpg

Sigmund Freud

freud_ali.jpg

Georg Wilhelm Friedrich Hegel

hegel_casal.jpg

Martin Heidegger

heidegger_arma.jpg

Thomas Hobbes

hobbes_xadrez.jpg

David Hume

hume_cigar.jpg

Roman Jakobson

jakobson_bridge.jpg

Immanuel Kant

kant_bomba.jpg

Gottfried Wilhelm von Leibniz

leibniz_mortesocrates.jpg

Karl Marx

marx_necroterio.jpg

Friedrich Nietzsche

nietzsche_coca.jpg

Jürgen Habermas

habermas_boxe.jpg

Platão

platao_prostituta.jpg

Jean-Paul Sartre

sartre_adega.jpg

Ferdinand de Saussure

saussure_bush.jpg

Arthur Schopenhauer

schopenhauer_carro.jpg

(publicado originalmente em the waste herald)

 

 
 
 
 
 
 


 

 
 
 

   Próxima página »




XHTML 1.0 Transitional
RSS ADC taedium vitae
Ateus.net – O Portal Ateísmo
[nerd inside]


[]
[On-line há ]
Powered by
intelligence...